Livro 110 anos do Colégio de São Bento

Ir. João Baptista Barbosa – OSB

Breve História do Colégio de São Bento de São Paulo (1903-2013)
110 anos de tradição, educação e cidadania
Revisão: Sonia Abou.

São Paulo
Mosteiro de São Bento de São Paulo
2013

BREVE HISTÓRIA DO COLÉGIO DE SÃO BENTO DE SÃO PAULO (1903-2013)
110 ANOS DE TRADIÇÃO, EDUCAÇÃO E CIDADANIA

No Mosteiro

Pelos compridos corredores
Vestes negras serpenteiam.
Por onde passam, plantam sementes
Palavras, gestos, olhares…

Nessas paredes,
Portas janelas,
Quantas pessoas, imagens
Sentimentos e história já se passaram?

Em cada quadro,
Em cada canto
Em cada obra, em cada sala…
Quanto de arte se preserva?

Em cada olhar,
Através de suas vidraças
Um mundo se descortina, se abre
E se confronta…

O novo, o antigo
A cidade que pulsa
A história que revive
A realidade que não espera…

E o Mosteiro ali,
Edificado como uma rocha
Dia após dia, ano após ano
Se transforma, mas preserva…

Preserva a vida
Preserva o ideal
Preserva a memória
E escreve, a cada dia, uma nova história.

Ana Maria Diamantino
Professora do Colégio de São Bento de São Paulo

APRESENTAÇÃO

Este artigo tem o objetivo de apresentar um resumo histórico a respeito da caminhada do Colégio de São Bento, situado no Centro da Cidade de São Paulo. Além disso, exponho a intenção primária do agir beneditino, tendo como referência a Regra escrita por São Bento, Patriarca dos Monges do Ocidente, em Montecassino, como motivação educacional para o bem viver, impulsionando os educandos numa vivência fraterna na construção de uma sociedade justa e sadia.

Trata-se aqui de uma homenagem aos monges fundadores e educadores do Colégio de São Bento de São Paulo, que em 110 anos de existência têm formado milhares de cidadãos brasileiros e estrangeiros com base na Verdade, revelada por Nosso Senhor Jesus Cristo. Estendo o panegírico aos educadores laicos que doaram suas vidas à educação e por anos exerceram tal vocação nesta casa de ensino, aprendendo e transmitindo também os valores beneditinos. Valores cristãos.
Vida de São Bento
São Bento nasceu em Núrcia, (Itália) por volta do ano 480. Ainda jovem estudou em Roma, tendo posteriormente procurado viver a vida eremítica numa gruta em Subiaco, próximo à cidade eterna. Mais tarde um grupo de discípulos se sente atraído pela sabedoria de Bento, sendo fundado, assim, o núcleo inicial do mosteiro de Montecassino. Foi nesta localidade que escreveu a famosa Regra Beneditina. Ora et Labora (oração e trabalho) traduz o sentido da regra para a vida monástica proposta por Bento. Este é também o lema da mesma Ordem. Pela coerência e clareza de sua escrita, muitos monges adotaram a Regra de vida escrita por ele. Por tal atitude São Bento foi proclamado patriarca dos monges do Ocidente.
Morreu no mosteiro de Montecassino a 21 de março de 547. Suas relíquias podem ser veneradas no mesmo mosteiro num magnífico mausoléu em estilo beuronense, esculpido pelo monge beneditino Dom Adelbert Gresnigt.
No ano de 1964 o Papa Paulo VI proclamou São Bento como o padroeiro da Europa. Sua Santidade, o Papa Bento XVI, hoje Papa emérito, o tem como protetor e patrono. Daí a escolha de seu nome: Bento.

A REGRA DE SÃO BENTO E A EDUCAÇÃO

A Ordem de São Bento sempre foi lembrada por estimar pela cultura e o ensino. São Bento em sua famosa Regra, escrita no Mosteiro de Montecassino, revela-se como um pedagogo, que, como a expressão original já expõe, não está preocupado apenas com a transmissão ou detenção do saber, mas em educar o monge para o bem.

Os mosteiros que militam sob a Regra Beneditina são conhecidos como “escolas de serviço do Senhor”. Tal expressão é utilizada diversas vezes na regra e demonstra a sensibilidade do patriarca dos monges do Ocidente com o ser humano e suas mazelas. Para tal, são aplicados graus para se obter o objetivo do encontro íntimo com Cristo e este se dá no encontro com o próximo.

Mas é preciso lembrar que, cada mosteiro possui aspectos singulares devido aos seus membros, condições físicas e culturais, mas a regra existe para regular a vida do mosteiro, sendo instrumento nesta escola de serviço. Este serviço se dá a todo instante: no ofício divino – louvor constante a Deus – e no trabalho manual.

Eis onde queria chegar: o trabalho manual. O mosteiro é como uma pequena cidade. Cada monge é responsável por um setor administrando uma área específica. Cada um possui um cargo, o que faz a vida no mosteiro fluir. Assim, encontraremos o alfaiate, o cozinheiro, o bibliotecário, o sacristão etc. Todos os membros juntos chegarão ao bom termo. E como diz o próprio São Bento: “Que em tudo seja Deus glorificado”.

No capítulo 48 da RB, “Do trabalho manual cotidiano”, curiosamente encontraremos a leitura como ato vinculado ao trabalho. E de fato o é. E, pela sua importância, pode-se afirmar que este capítulo “salvou” e conservou a cultura Ocidental.

Sabe-se que nem São Bento nem seus companheiros tiveram ao fundar o monaquismo cristão ocidental, nenhuma intenção intelectual. A educação surgiu naturalmente, como uma imposição da busca da vida espiritual. Vale ressaltar que, o contexto histórico era o dos saques bárbaros e o constante declínio do império romano. Os monges procuravam se afastar das cidades em busca de paz espiritual, um local propício para sua ascensão e encontro com Deus. “Os monges começaram, assim, pela solicitação espontânea dos acontecimentos, a imensa atividade educacional da qual resultaria nada menos que a Europa civilizada.”
CAPÍTULO 48 – Do trabalho manual cotidiano
[1] “A ociosidade é inimiga da alma; por isso, em certas horas devem ocupar-se os irmãos com o trabalho manual, e em outras horas com a leitura espiritual. [2] Pela seguinte disposição, cremos poder ordenar os tempos dessas duas ocupações: [3] isto é, que da Páscoa até o dia 14 de setembro, saindo os irmãos pela manhã, trabalhem da primeira hora até cerca da quarta, naquilo que for necessário. [4] Da hora quarta até mais ou menos o princípio da hora sexta, entreguem-se à leitura. [5] Depois da sexta, levantando-se da mesa, repousem em seus leitos com todo o silêncio; se acaso alguém quiser ler, leia para si, de modo que não incomode a outro.
[6] Celebre-se a Noa mais cedo, pelo fim da oitava hora, e de novo trabalhem no que for preciso fazer até a tarde. [7] Se, porém, a necessidade do lugar ou a pobreza exigirem que se ocupem, pessoalmente, em colher os produtos da terra, não se entristeçam por isso, [8] porque então são verdadeiros monges se vivem do trabalho de suas mãos, como também os nossos Pais e os Apóstolos. [9] Tudo, porém, se faça comedidamente por causa dos fracos.
[10] De 14 de setembro até o início da Quaresma, entreguem-se à leitura até o fim da hora segunda, [11] no fim da qual se celebre a Terça; e até a hora nona trabalhem todos nos afazeres que lhes forem designados. [12] Dado o primeiro sinal da nona hora, deixem todos os seus respectivos trabalhos e preparem-se para quando tocar o sinal. [13] Depois da refeição, entreguem-se às suas leituras ou aos salmos.
[14] Nos dias da Quaresma, porém, da manhã até o fim da hora terceira, entreguem-se às suas leituras, e até o fim da décima hora trabalhem no que lhes for designado. [15] Nesses dias de Quaresma, recebam todos respectivamente livros da biblioteca e leiam-nos pela ordem e por inteiro; [16] esses livros são distribuídos no início da Quaresma. [17] Antes de tudo, porém, designem-se um ou dois dos mais velhos, os quais circulem no mosteiro nas horas em que os irmãos se entregam à leitura [18] e verão se não há, por acaso, algum irmão tomado de acédia, que se entrega ao ócio ou às conversas, e não está aplicado à leitura e não somente é inútil a si próprio como também distrai os outros. [19] Se um tal for encontrado, o que não aconteça, seja castigado primeira e segunda vez: [21] se não se emendar, seja submetido à correção regular de tal modo que os demais temam. [21] Que um irmão não se junte a outro em horas inconvenientes.
[22] Também no domingo, entreguem-se todos à leitura, menos aqueles que foram designados para os diversos ofícios. [23] Se, entretanto, alguém for tão negligente ou relaxado, que não queira ou não possa meditar ou ler, determine-se-lhe um trabalho que possa fazer, para que não fique à toa. [24] Aos irmãos enfermos ou delicados designe-se um trabalho ou ofício, de tal sorte que não fiquem ociosos nem sejam oprimidos ou afugentados pela violência do trabalho; [25] a fraqueza desses deve ser levada em consideração pelo Abade.”

A Regra, um texto legislativo e como o próprio título sugere, mantém a harmonia na vida da comunidade cuja principal tarefa é a oração, perpassada pelo trabalho manual. Assim, todas as horas do dia têm sua utilização prevista na regra, de modo que o monge está sempre ocupado. Todas as horas que não são dedicadas às atividades de oração ou trabalho manual, o monge deve se dedicar à leitura e ao estudo. Deste modo, a regra define seu papel preponderante na organização de estudos introduzida no Ocidente. Os mosteiros se tornaram fontes de saber, casas de cultura onde eram conservados os clássicos da literatura de então – cristãos ou não. Foram nos mosteiros que tiveram início os estudos hermenêuticos, teológicos e filosóficos da Europa. A medicina e a agricultura também tiveram certo desenvolvimento a partir de experiências e estudos dentro dos mosteiros. E se hoje lemos os diálogos de Platão e de tantos outros pensadores clássicos, possivelmente é pelo fato de algum monge o ter traduzido, iluminado e copiado. Encontra-se incutido aí a máxima de Santo Agostinho quanto à meditação das verdades sagradas quando afirma: “compreenda a minha palavra para crer, e creia a palavra de Deus para compreender.” Sendo assim, a Igreja reconhece tal importância do saber quando afirma que “as bibliotecas de propriedade eclesiástica, junto das quais são conservados e tornados acessíveis os monumentos da cultura humana e cristã de todos os tempos, representam um tesouro inexaurível de saber, do qual a inteira comunidade eclesial e a própria sociedade civil podem haurir, no presente, a memória do seu passado.”

Assim, os monges beneditinos – representantes da Igreja – durante séculos mantêm, cultivam e difundem a cultura para os mais diversos povos. Eles foram os responsáveis pela evangelização da Europa, fato que motivou São Bento ser aclamado como o padroeiro deste grande continente. Vale ressaltar assim, “que a Igreja, instituída por Cristo para levar a mensagem da salvação a todas as gentes e para conservar a sua viva memória, dentro das tradições das sociedades e das culturas, no seio das quais a assimilação da fé germina, tem cuidado dos livros e pergaminhos, porque está animada por um íntimo interesse pela cultura de cada povo e nação.”

Mas os mosteiros não são “escolas de serviço do Senhor” apenas no aspecto simbólico. Surgiram nestes templos de sabedoria as escolas monásticas. A educação nos mosteiros está sempre ligada à evangelização. É a transmissão e o ensinamento do Evangelho, isto é, as palavras e os gestos do próprio Cristo. Esta missão de transmitir tais valores se revela como uma participação das mesmas Verdades. Definiu muito bem o padre Sertillanges quando exprime a virtude do estudo e da assimilação da Palavra, esta busca pela verdade: “Não é de forma alguma pelo que há em nós de individual que acendemos à verdade: é em virtude de um participação no universal. Esse universal, que é ao mesmo tempo vero e bom, nós não podemos honrar como verdadeiro, unir-nos a ele intimamente, descobrir seus rastros e submeter-nos poderosamente a seu domínio sem reconhecê-lo e servi-lo como sendo igualmente o bem.”

Dentro da clausura, o monge possui uma estrutura e pode se dedicar ao estudo de maneira privilegiada, cabendo ao mosteiro transmitir e gerar conhecimento. Tal programa definiu a forma ocidental de estudar e de fazer cultura, tornando a Regra de São Bento o texto fundador da nova cultura cristã. Sendo assim, o monge deve saber ler e aprender a Sagrada Escritura e os salmos, os hinos litúrgicos, o canto gregoriano, palavra cantada – tão preservada e tão ligada à vida monástica – formando um programa tão amado e admirado de cultura.

Com tal aporte, foram surgindo nos mosteiros, escolas. Famílias abastadas encaminhavam seus filhos a tais edificações, a fim de que adquirisse conhecimento e base para administrar seus bens e dar continuidade ao clã, ganhando destaque a fascinante Abadia de Cluny com sua grande influência no desenvolvimento intelectual, assim como também, a renascença carolíngia com empreendimentos de reformas e restaurações de escolas episcopais e monásticas.

É também no contexto monástico medieval que as primeiras universidades surgem, atraindo jovens e poetas, intelectuais diversos e religiosos que zelam pelo Cristo e sua Igreja.

E como bem nos fez lembrar o saudoso educador beneditino Dom Lourenço de Almeida Prado: “O surgimento dos colégios de São Bento foi uma decorrência humana da vitalidade e virtualidades da Regra, mas não uma previsão determinada. Uma decorrência da força comunicadora da vida beneditina.”

O principal objetivo de uma escola beneditina, com esta força comunicadora, é formar integralmente seus estudantes. E não foram poucos os que foram educados nos mosteiros. Assim, o claustro revela-se como um oásis proporcionando uma experiência humana sem a desvincular da profunda experiência religiosa do encontro com Deus. Eis o ponto chave.

O ensino nos mosteiros se traduz na formação de cidadãos participantes e transformadores de nossa sociedade a partir dos valores cristãos propostos na já regra, citada muitas vezes. Não seria ela uma forma de viver o evangelho?

A Igreja sempre esteve consciente de que o mundo da educação sempre foi tido como um campo privilegiado para promover a inculturação do Evangelho. Possuem papel importante nesta missão a família e as instituições educacionais, das quais devem haurir na mensagem de Cristo bem como no ensinamento da Igreja a substância de seu projeto educativo, o amor, a verdade e o bem.

A Regra de São Bento e o ensino nos mosteiros brasileiros – São Paulo

No Brasil muitos mosteiros mantêm escolas e faculdades. O Mosteiro de São Bento de São Paulo tem a honra de ostentar um dos melhores e mais importantes colégios do país e a 1ª Faculdade de Filosofia da América Latina, criada em 1908.

Mas as letras e a cultura livresca se faz presente desde sua fundação em 1598, onde é preservada a cultura em meio a uma pacata São Paulo colonial. Ressaltamos nos seus mais de 400 anos de História a eminente figura de Frei Gaspar da Madre de Deus, o grande historiador paulista e exímio filósofo que registrou as suas notas das aulas de Filosofia em um manuscrito em latim, em dois tomos, intitulado “Philosophia platonica seu rationalem, naturalem et transnaturalem philosophiam sive logicam, physicam et metaphysicam”, datado de 1748 e descoberto junto a outros documentos por outra imponente figura das pesquisas historiográficas, Affonso d’Escragnolle Taunay no ano de 1919. No primeiro tomo faz referências à Duns Scotus e a Francis Bacon, o que demonstra que o estudioso monge estava a par das críticas à escolástica. No segundo tomo estuda a matéria e as causas consoante a concepção aristotélica do saber.

1o novo Mosteiro de São Bento de São Paulo – início do século XX

A Faculdade de São Bento foi fundada como Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e foi o núcleo fundacional da PUC de São Paulo, criada em 1946, nesta época sob a direção do Abade Dom Paulo Pedrosa. Era comum neste período encontrar alguns monges lecionando em diversos cursos de uma das mais importantes universidades do país.

Sempre com participação ativa na sociedade paulistana, as instituições educacionais do Mosteiro de São Bento de São Paulo tiveram alunos e professores que se destacaram nos meios políticos, intelectuais e artísticos do Brasil.

É a prova de que a Regra de São Bento, com 1.500 (mil e quinhentos anos) após ser redigida, ainda é atual, alcançando seus objetivos: harmonia, boa administração e bem-estar.

Colégio de São Bento de São Paulo

Era o mês de setembro de 1902 quando se deu a benção da pedra fundamental do tão sonhado gymnasio beneditino em São Paulo. Na ocasião estavam presentes, além das autoridades religiosas, encabeçada pelo bispo Dom Antônio Cândido Alvarenga e diversas personalidades políticas como o governador do Estado de São Paulo, Bernardino de Campos.

Os meses que se sucederam a este ato foram de trabalho intenso e de entusiasmada troca de correspondências entre Dom Miguel Kruse, o fundador e Dom Gerardo van Caloen, o abade responsável pela restauração dos mosteiros brasileiros.

“A obra caminha depressa. Esperamos que esteja pronta até fevereiro (de 1903) a fim de que possamos começar com algumas classes. A impressão que esse empreendimento está causando, não apenas em São Paulo, mas também no Rio (de Janeiro), é muito favorável. Mostra às pessoas que estamos em casa e nos preparando para um futuro grande, grandioso. Os católicos se alegram e os demais ficam perplexos.”

Fundado em 1903 como Gymnasio de São Bento, o colégio foi uma iniciativa do grande reformador Dom Miguel Kruse.

As aulas na nova instituição de ensino em São Paulo tiveram início a 15 de fevereiro de 1903. O 1° aluno matriculado foi Gofredo da Silva Teles de família distinta. Dentre os docentes na ocasião da fundação estavam grandes nomes da sociedade paulistana. Podemos citar alguns como Batista Pereira, Tobias de Aguiar, Miguel Ferreira, Alfredo Pacheco Ademar de melo Franco, Albert Levy e o historiador Affonso d’Escragnolle Taunay.

Já nos primeiros anos de sua existência, devido ao rigor do ensino e de seu extraordinário desenvolvimento, foi criado em 1906 o internato. Jovens de interior de São Paulo e de outros Estados do Brasil afluíam ao florescente gymnásio. Por esta época foi adquirido um terreno na região do Alto de Santana, onde se construiu uma chácara, lugar aprazível para os dias de passeio, lazer e descanso dos internos.

Em 1943, recebeu o título de Colégio de São Bento. Em 110 anos de atividade, o colégio tem formado com muito orgulho várias gerações de alunos, muitos deles ilustres em seus campos de atuação. Frequentaram seus bancos escolares personalidades como o Governador do Estado de São Paulo André Franco Montoro – que também se tornou professor do gymnásio –, o Prefeito da cidade de São Paulo Francisco Prestes Maia, o médico Antonio Prudente Meireles de Morais (neto do presidente da República Prudente José de Morais e Barros), o poeta e tradutor Haroldo de Campos, os escritores Oswald de Andrade e Guilherme de Almeida, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, o ator Raul Cortez, dentre muitos outros.

O Colégio de São Bento tem como principal objetivo a formação integral de seus alunos. As estratégias adotadas pelo Colégio de São Bento estimulam o aluno a pensar em busca de soluções; a realizar tarefas de maneira autônoma; a reconhecer o seu próprio potencial para construir projetos de vida e capacitar-se a enfrentar mudanças.

Foram muitos os acontecimentos ao longo de sua História. Vale destacar os novos ares surgidos em 2006, quando a comunidade chinesa em São Paulo pediu a ajuda dos monges para acolher as crianças, filhos de imigrantes chineses. Nesta época foram contratados professores de origem chinesa conhecedores da cultura brasileira. Há uma linha de conduta e o objetivo de oferecer a possibilidade de acesso à cidadania e identidade cultural.

As participações dos educadores são decisivas para as orientações adotadas pelo colégio, contando com o apoio e amor determinado do atual abade do mosteiro, Dom Matthias Tolentino Braga e de seus monges.

Rejubilamos também ao celebrar estes 110 anos de existência por termos dado à Santa Madre Igreja dezenas de sacerdotes entre eles um bispo, dois abades e vários religiosos das mais diversas ordens e congregações.

No ano de 2007 o Papa Bento XVI esteve hospedado no Mosteiro, ocasião em que abençoou as instalações do colégio e faculdade.

3Papa Bento XVI abençoa os fiéis da fachada do Colégio de São Bento de São Paulo

O Mosteiro e o Colégio de São Bento são patrimônios importantes da cidade de São Paulo e com grande alegria e júbilo comemoramos os 110 anos de sua História. Certamente o Colégio de São Bento é uma instituição imprescindível no cenário educacional de São Paulo, haja vista ter formado, ao longo de todos estes anos, cidadãos competentes e conscientes das suas responsabilidades. Tentamos caminhar e dialogar com o mundo, tendo bom retorno. Eis a motivação para dar continuidade em nossas atividades educacionais, adaptada às condições atuais, dentro de uma orientação que deve ser imitada por outras instituições. Ora et Labora et Legere resume o que fora apresentado. O Colégio de São Bento do século XXI é uma mescla de tradição e inovação com um projeto pedagógico de educação integral da pessoa que passa pela formação intelectual, pela afetividade, sociabilidade, criatividade, liberdade e cidadania.

Reitores do Colégio de São Bento de São Paulo
1. Dom Miguel Kruse – 1903-1905;
2. Dom Pedro Eggerath – 1906-1914;
3. Dom Domingos Schellhorn – 1915-1916;
4. Dom Amaro van Amelen – 1917-1920;
5. Dom Domingo Schellhorn – 1921-1924;
6. Dom Alcuíno Richarz – 1925-1927;
7. Dom Amaro van Emelen – 1928-1929;
8. Dom Ludgero Jaspers – 1929-1932;
9. Dom Rafael Riepenhoff – 1933 (1° semestre);
10. Dom Policarpo Amstalden – 1933-1937;
11. Dom Paulo Pedrosa – 1938-1946;
12. Dom Cândido Padin – 1947-1949;
13. Dom Rafael Riepenhoff – 1950-1961;
14. Dom Cândido Padin – 1962 (1° semestre);
15. Dom Beda Nebel – 1962-1978);
16. Dom Lucas Torrel de Almeida Costa – 1979-1982;
17. Dom Beda Nebel – 1982-1988;
18. Dom Estevão de Souza Neto – 1989-1991;
19. Dom João da Cruz – 1991-1994;
20. Dom Rocco Fraioli – 1994-2001;
21. Dom Adriano Bellini – 2001-2003;
22. Dom Matthias Tolentino Braga – 2003;
23. Dom Eduardo Uchôa – 2004-2010;
24. Dom Abade Matthias Tolentino Braga – 2011-2013.

Alguns dos alunos do Colégio de São Bento que ganharam destaque na sociedade
• Adhemar Pereira de Barros – prefeito da cidade de São Paulo e governador do Estado de São Paulo;
• Alberto Marsicano – músico, tradutor, escritor, filósofo e professor;
• Antônio Castilho de Alcântara Machado d’Oliveira – jornalista, político e escritor;
• André Franco Montoro – governador do Estado de São Paulo;
• Antônio Prudente de Morais – médico fundador do hospital do câncer;
• Augusto Luis Brown de Campos – poeta, tradutor e ensaísta;
• Boris Fausto – historiador e cientista político;
• Carlos Alberto Bonetti Moreno – ator;
• Fábio de Arruda Zamith (Dom Joaquim de Arruda Zamith) – abade beneditino;
• Francisco Prestes Maia – prefeito da cidade de São Paulo;
• Gofredo Teixeira da Silva Telles – prefeito da cidade de São Paulo. Foi o 1° aluno matriculado do Gymnasio de São Bento;
• Gofredo da Silva Telles Júnior – advogado, jurista e professor;
• Guilherme de Andrade de Almeida – escritor, poeta, ensaísta e jornalista;
• Haroldo Eurico Brown de Campos – poeta e tradutor;
• Jorge da Cunha Lima – jornalista, escritor e presidente da Fundação Pe Anchieta;
• José Oswald de Souza Andrade – escritor, ensaísta e dramaturgo;
• Luciano Amaral – ator e diretor;
• Lucas Nogueira Garcez – governador do Estado de São Paulo;
• Luiz Cesar de Proença – abade beneditino;
• Marcelo Mendonça Rossi – sacerdote da diocese de Santo Amaro;
• Paulo Leminski – escritor, poeta, crítico literário e tradutor;
• Paulo Ricardo Oliveira Nery de Medeiros – cantor, baixista e compositor;
• Raul Christiano Machado Pinheiro de Amorim Cortez – ator;
• Renato de Castro Borghi – ator, diretor e autor de teatro;
• Rogério Amato – Presidente da Associação Comercial de São Paulo;
• Rubens Padin (Dom Cândido Padin) – bispo da diocese de Bauru;
• Sérgio Buarque de Hollanda – historiador, crítico literário e jornalista;
• Sérgio Cardoso – ator;
• Tarcísio Magalhães Sobrinho (Tarcísio Meira) – ator.

LINHA DO TEMPO COLÉGIO DE SÃO BENTO DE SÃO PAULO

1902 (setembro) – Lançamento da pedra fundamental do Gymnasio de São Bento, anexo ao Mosteiro de São Bento de São Paulo, com a presença de autoridades como o Bispo Dom Antônio Cândido Alvarenga e Bernardino de Campos, presidente do Governo do Estado de São Paulo;
1903 (15 de fevereiro) – início do 1° ano letivo com 163 alunos. O 1° aluno matriculado foi Gofredo Teixeira da Silva Teles, que se tornou prefeito de São Paulo em 1932;
1903 (21 de março) – Fundação com o nome de Gymnasio de São Bento por iniciativa de Dom Miguel Kruse e tendo Affonso d’Escagnolle Taunay no quadro de professores;
1906 – Abertura do internato;
1907 – Dom Miguel Kruse torna-se abade do Mosteiro de São Bento de São Paulo;
1908 – Fundação da Faculdade de Filosofia, ciências e letras de São Bento, vinculada à Universidade de Louvain, Bélgica;
1908 – Fundação do Instituto Eduardo Prado, obra de assistência a meninos vendedores de jornais e engraxates, com alguns professores do Gymnasio de São Bento;
1909 – Fundação do núcleo de treinamento de arma coordenado pelo exército brasileiro no Gymnasio de São Bento;
1910/1912 – Construção do conjunto arquitetônico do Mosteiro de São Bento (igreja, mosteiro e fachada em estilo neo-românico e pinturas internas beuronenses);
1918 – Criação da Escola Primária Mista na Chácara de São Bento – pertencente ao gymnasio e que hoje é o bairro Jardim São Bento, na Zona Norte da cidade de São Paulo. Atendia os filhos dos operários da região;
1918 – O Gymnasio de São Bento abre as portas e torna-se “hospital” para o acolhimento da população assolada pela epidemia de gripe espanhola. Tinha capacidade para 100 leitos;
1924 – Durante a Revolução Tenentista, o Gymnasio de São Bento mais uma vez, transforma-se num hospital improvisado e campo de refugiados, recebendo mais de 500 pessoas;
1928/1930 – Criação da Associação de ex-alunos;
1929 (1° de abril) – Morte do abade Dom Miguel Kruse. No mesmo ano é eleito abade, Dom Domingos Schelhorn, antigo reitor do Gymnasio de São Bento;
1929/1930 – Conclusão definitiva da construção do edifício do Gymnasio;
1932 – Explode a Revolução Constitucionalista. O Gymnasio de São Bento, pela 3ª vez, transforma-se em “hospital”;
1934 (agosto) – Criação da revista “Cantabona”, publicação do Grêmio Literário;
1936/1937 – Término das pinturas em estilo beuronense da capela do Gymnasio, no 3º andar do edifício;
1942 (de 03 a 07 de setembro) – 4° Congresso Eucarístico Nacional realizado em São Paulo, com considerável participação dos alunos do Gymnasio de São Bento (Congregação Mariana, Cruzada Eucarística, Santa Infância);
1943 – O Gymnasio de São Bento muda o nome para Colégio de São Bento, atendendo as reformas educacionais brasileiras;
1946 – Fundação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a PUC;
1947 – O jovem monge Dom Candido Padin torna-se reitor do Colégio, dando nova impressão decorrente de um pensamento intelectualizado e sintonizado com as discussões práticas pedagógicas mais arrojadas para a época. André Franco Montoro está no quadro de professores;
1952 – O Colégio de São Bento passa a ser semi-internato;
1953 – Jubileu de ouro do Colégio de São Bento;
1954 – 4° Centenário da Fundação de São Paulo;
1955 – Congresso Eucarístico Internacional Jovem, realizado no Rio de Janeiro com participação de alunos do Colégio de São Bento de São Paulo;
1958 – A Associação de ex-alunos muda o nome para “Antiqui Sancti Benedicti Alumni” (ASBA), ganhando destaque na sociedade;
1959 – Criação, pela ASBA do Lar São Bento que depois passa a se chamar “Casa Dom Macário Schimidt”, no bairro da Vila Maria, para a assistência à criança carente. Desde sua criação a Casa Dom Macário tem a assistência de um monge do Mosteiro de São Bento;
1962 – Abertura do Concílio Vaticano II, que dá novo impulso e nova visão à Igreja no mundo atual;
1969 – Início da construção da linha Norte/Sul do metrô de São Paulo, deixando o conjunto do Mosteiro de São Bento completamente isolado, comprometendo o bom andamento das aulas;
1971 – Contratação das primeiras mulheres como professoras do Colégio de São Bento: Maria Alice Prado e Maria Auxiliadora de Sales Lima;
1977 – O Colégio de São Bento passa a ser misto, acolhendo as primeiras meninas nas aulas;
1984 – Campanha “Diretas já”;
1985 – Fim da Ditadura Militar;
1992 – impeachment do Presidente Fernando Collor de Mello. Os alunos do Colégio de São Bento saem às ruas juntando-se aos “caras-pintadas”;
1998 – 4° Centenário do Mosteiro de São Bento de São Paulo;
2003 – Centenário do Colégio de São Bento;
2004 – Reforma, restauração e adaptação às normas atuais de estrutura do Colégio de São Bento;
2006 – Acolhimento da comunidade chinesa, tendo o apoio da Missão Católica Chinesa no Brasil;
2007 (09 a 13 de Maio) – Visita do Papa Bento XVI ao Brasil. O Papa fica hospedado no Mosteiro de São Bento;
2011 – Criação do ensino infantil, com instalações lúdicas e modernas adaptadas aos pequeninos alunos;
2013 – Aniversário de 110 anos de fundação do Colégio de São Bento de São Paulo.

Dom Miguel Kruse – Abade fundador do Colégio de São Bento de São Paulo

Um dos personagens mais interessantes e importantes da vida monástica brasileira é o abade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, Dom Miguel Kruse. Tão importante baluarte nasceu a 17 de Junho de 1864 em Stukenbrock, na Westfália, Alemanha. Seus pais, Ferdinand e Magdalena o batizam com o nome de Heinrich.
Ainda criança fica órfão. A propriedade da família sofre um incêndio, ocasionando a morte de seus pais. O sofrimento é ainda maior com a separação de seus irmãos, que passam a ser educados por famílias diferentes.
Ainda muito cedo, brota no coração de Heinrich o desejo ao sacerdócio. Mas este desejo teve que esperar, pois Bismark – o chanceler de ferro –, desempenhando seu projeto de Kulturkampf, torna a situação difícil, a qual o obriga a ingressar nos estudos seculares. Algo também contribuiu para tal fato: houve o fechamento dos seminários.
Com a idade de 18 anos e alimentando seu desejo ao sacerdócio, embarca num vapor para os Estados Unidos da América. É quando atravessa os umbrais da Abadia Beneditina de Saint Vincent na Pensilvânia.
Às vezes, algumas coisas que não entendemos, acontecem em nossa vida para uma missão maior. Assim foi com o jovem Heinrich. Em Saint Vincent não é aceito de ingressar no noviciado por suspeita de problemas com sua saúde. Por isso, segue a vocação de padre secular formando-se como “Master of Arts” na Universidade de Georgetown.
O bispo da diocese de Porto Viejo, Equador, Schuhmacher, está em busca de sacerdotes para uma missão na América do Sul. Para tal fim, Heinrich é ordenado sacerdote a 09 de abril de 1888. No Equador contrai malária e retorna aos EUA.
Pe Heinrich nunca perdeu o desejo de ser monge beneditino. Sempre teve muito contato com os monges e com as religiosas que seguiam a famosa Regra de São Bento. Esta grande proximidade o fez saber da novidade da restauração da Congregação Beneditina do Brasil pelos monges alemães da Abadia de Beuron, Baviera. É quando toma uma importante decisão e viaja em direção ao Brasil, pedindo admissão ao Mosteiro de São Bento de Olinda.
Eis sua grande e importante missão: Ele será o grande reformador da congregação em vias de desaparecer.
Já com a idade de 33 anos, chega a Olinda a 09 de junho de 1897. Ingressa no noviciado e recebe o nome de Miguel. Profere sua profissão monástica na festa de Pentecostes de 1898 e pouco tempo depois é nomeado prior do mosteiro de Olinda.
É tempo de muito trabalho. Dom Miguel sempre teve um espírito de empreendedor. Em Olinda funda o jornal O Estandarte Católico, exaltando a fé e a Igreja de Cristo e formando os fiéis no amor, propagando a fé católica.
É transferido para o mosteiro da Bahia, mas não se adapta e é enviado a São Paulo.
A situação do Mosteiro de São Paulo era preocupante. O último monge havia falecido recentemente e pairava os protestos de interesseiros pela “lei de mão morta”. Mas com a presença de Dom Miguel o mosteiro e seus bens permanecem na congregação. É quando se torna prior.
Ora, como bem sabemos, o mosteiro de São Paulo estava deserto, mas Dom Miguel desenvolve um espírito político com a população e seus governantes.
A ocasião é de efervescência. São Paulo, ao final do século XIX e início do XX, vive um momento de transformação. A cidade está em pleno desenvolvimento industrial e cultural, tornando-se já um ponto de apoio aos imigrantes. Vale ressaltar a presença dos “barões do café” que deram grande impulso no crescimento, formação e urbanização da cidade. É esta São Paulo que Dom Miguel encontra.
O primeiro grupo de monges da abadia de Beuron chega a São Paulo em 1895. Em 1900, a comunidade monástica já é formada por 14 religiosos. É retomado o ofício divino e demais celebrações litúrgicas. O canto gregoriano e as pregações beneditinas passaram a ser assuntos na cidade, atraindo considerável número de fiéis.
Por estes idos, a cidade de São Paulo contava com muitos estrangeiros que pelos motivos mais variados deixavam seus países e se dirigiam ao Brasil em busca de melhores condições de vida. A comunidade alemã em São Paulo era numerosa e teve o paterno atendimento de Dom Miguel. Também outras comunidades de imigrantes foram atendidas e confortadas por este grande monge como os grupos de ingleses e italianos.
Os trabalhos são numerosos e intensos: é fundado O Estandarte Católico do Sul, de circulação quinzenal e o Gymnásio de São Bento em 1903, nas dependências do mosteiro. É também aberto um ginásio noturno para atendimento da população pobre. Dom Miguel também passa a assistir às crianças pobres (engraxates e vendedores de jornais), criando a obra de assistência ao pequeno jornaleiro.
Não mediu esforços em conseguir trazer as irmãs da congregação de Santa Catarina e fundar um sanatório em plena Avenida Paulista no ano de 1906, sanatório conhecido até hoje com o nome de Hospital Santa Catarina.
Tornou-se necessário, para balizar a educação em São Paulo, a construção de um colégio para moças, uma vez que já existia o gymnásio masculino com internato de São Bento. Foi quando em 1907, Dom Miguel colaborou com as Cônegas de Santo Agostinho para criar o Colégio Des Oiseaux, que se tornou de excelência feminino.
No mesmo ano é nomeado Abade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, quando consolida seu projeto de reforma do cenóbio paulistano.
Funda em 1908 a Faculdade de São Bento, vinculada à Universidade de Louvain, Bélgica. Os cursos oferecidos na época da fundação são Filosofia e Letras.
Responsável pela fundação do primeiro mosteiro beneditino feminino das Américas, o Mosteiro de São Maria em 1911, com monjas advindas da Abadia de Stanbrook, Inglaterra, tendo dentre elas, religiosas brasileiras. No ano seguinte, auxiliou as irmãs da congregação de Santa Marcelina e as ajuda na fundação de um colégio para moças na Rua Cardoso de Almeida, no bairro das Perdizes.
E como bem vimos, a História é dinâmica. Dom Miguel ia aos poucos mudando os traços físicos do mosteiro. Como encontrou um mosteiro em precárias condições físicas, resolveu mandar demolir a edificação em estilo colonial, construindo em seu lugar, uma magnífica construção monástica no estilo beuronense, construção atual do cenóbio. A estrutura da igreja já estava concluída em 1912, mas era apenas a estrutura. Faltava muito para terminar.
O projeto do Mosteiro destoa totalmente dos demais a que a cidade seguia. Trata-se de um projeto monástico, trazendo o teor de uma tradição medieval – Arquitetura, música, Arte e estilo de vida.
As feições arquitetônicas são do alemão Richard Berndl, notável arquiteto e professor da Universidade de Munique. O estilo arquitetônico escolhido foi o neoromânico, tendo a construção pequenas influências diversas.
Pinturas, esculturas e demais ornamentos são de autoria do beneditino belga da Abadia de Maredsous, Dom Adalbert Gresnigt (1877-1956). Este, quando estudava no Colégio Santo Anselmo, em Roma ficou responsável pela ornamentação geral da cripta de São Bento em Montecassino. Foi quando Dom Miguel Kruse, após admirar a obra de Dom Adelbert, solicitou sua colaboração para desenhar os planos de ornamentação geral da igreja abacial que acabara de construir em São Paulo.
Ao todo, foram 10 anos dedicados às pinturas murais da igreja, sendo esta consagrada em 1922, quando todo o cenóbio beneditino despontou como um dos prédios exponenciais da megalópole.
O que restou da antiga igreja na atual basílica são as imagens de São Bento e Santa Escolástica no altar-mor, de autoria de Frei Agostinho de Jesus – primeiro escultor brasileiro que viveu no mosteiro no século XVII -, um Cristo Crucificado esculpido pelo paulistano José Pereira Mutas, em 1777 e a belíssima imagem de Nossa Senhora da Conceição do século XVIII, num dos altares laterais da igreja.
As obras caritativas empreendidas pelos beneditinos sob a direção de Dom Miguel foi surpreendente. Como bem vimos, deu assistência educacional às crianças pobres. Mas o que chamou a atenção de todos foi o atendimento à população paulistana quando esta mais precisava. Com a epidemia de gripe espanhola de 1918, o gymnasio de São Bento transformou-se em hospital, disponibilizando 100 leitos aos enfermos acometidos por este mal. Além disso, os monges também se engajaram de outras formas de auxílio à população, que embora nem todos doentes, tinham outras necessidades. Houve no mosteiro distribuição diária de sopa aos famintos. Os monges ainda se responsabilizaram pela organização de trens de socorro que visitavam o bairro do Pari, levando alimentos aos trabalhadores e operários, distribuindo diariamente cerca de 700 poções de sopa.
Dom Abade Miguel Kruse faleceu em 1° de abril de 1929, deixando para a posteridade um legado inesquecível. Seus restos mortais repousam no cemitério de seu querido mosteiro de São Bento, situado no claustro, local onde os monges meditam diariamente as verdades sagradas. Na lápide lemos: Dilexit Ecclesiam (amou a Igreja).
Tudo o que esta imponente figura empreendeu e realizou em vida outro alvo não teve senão a felicidade das almas e o bem estar da sociedade.
O Mosteiro de São Bento de São Paulo, e porque não dizer a cidade de São Paulo, precisa sempre lembrar este grande baluarte de nossa História. Por isso, alegra-me saber da existência, num gesto de reconhecimento público, de uma unidade escolar, no bairro Ermelino Matarazzo, vinculada ao Governo do Estado de São Paulo, homenageando este insigne abade. Além disso, há ainda, no bairro Jardim São Bento, onde foi no passado a Chácara de Santana, pertencente ao Mosteiro de São Bento, uma praça denominada “Dom Abade Miguel Kruse”.

Fontes Bibliográficas:
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Mosteiro de São Bento. São Paulo: Editora Didática Paulista, 2007.
Arquivo da Abadia de Nossa Senhora da Assunção – Mosteiro de São Bento de São Paulo.
• Carta de Dom Miguel Kruse ao Abade Dom Gerardo van Caloen;
• Pergaminho do lançamento da 1ª pedra do colégio de São Bento (21 de setembro de 1902);
• Oração Fúnebre nas exéquias de Dom Miguel Kruse, OSB, proferida por Monsenhor Manfredo Leite (09 de abril de 1929);
• Anuários do Colégio de São Bento (1905-1978);
• Discurso de comemoração do jubileu de diamante do colégio de São Bento, proferido por Dom Martinho Johnson, OSB – 1978.

Ir. João Baptista Barbosa Neto, OSB

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